Ontem te vi passar. Seu carro estava lento o suficiente para que eu percebesse sua cara amarrada. Acho que você me olhou também. Um guardador de carros me seguia. Parou atrás de mim quando estanquei. Ele não entendeu porque. Você estava bonita com os cabelinhos de anjo e beicinho de brava. Ele não viu, só eu.
Eu acabava de sair da aula. Cheguei na sua rua às nove e cinqüenta e sete, bem a tempo de te ver. Ali estava uma menina linda, de aura dourada, com cara de zanga, dirigindo um carro sujo. Era pra não gostar, mas gostei. Tinha ido caminhar, espairecer. Te ver na rua foi acidente. Já podia ir pra casa. Me sentia leve o bastante para dormir. Sonhei que era um carro quebrado. Estranho. Nunca tinha me sonhei assim coisificado.
Sentei aqui de madrugrada. Não era pra te escrever, juro. Muita coisa me lembra você aqui desta cadeira. Penso naquele instante, às nove e cinqüenta e sete da noite. Sem esforço, me lembro de tudo: atravessei a rua... seu carro não parou... você passou por mim às nove e cinquenta e sete da noite.