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Olhos nos olhos

De quantos sentidos você precisa para enxergar sua verdadeira natureza?

 

                               http://www.alexgrey.com/



Escrito por Mauro Siqueira às 00h39
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Descendo a escadaria

 
Essa é uma resposta que estou guardando para algum dia, para não ter que ir embora sem dizer nada.
"l'esprit d'escalier signifie le fait de ne pas pouvoir répliquer sur le moment, de réagir après coup". 
 
Já sabia. Não estou surpreso. Estava esperando saber isso de você. 
Saber que você já está cansada, que não tem mais de onde tirar energia pra nos alimentar. 
Faz dias que vejo isso, que te provoco e tiro de você uma tristezinha contida. 
Eu já sabia. Você já tinha me avisado que tudo isso ia se tornar insustentável nalgum momento. 
O que dizer agora? Há algo que valha a pena? 
Sabe, também te olho muito. Nos olhos, nos cabelos, no jeito de andar. Jeito de se mexer... 
(quem te autorizou a tirar as palavras da minha boca?). 
Mas você me entra mais é pelo nariz. 
Gosto quando você se esquece na minha casa. 
Tudo fica com seu cheiro e eu não me sinto sozinho. 
Mas você fica, né? Você não vê espaço pra sua paixão.
Eu sabia que isso ia acontecer. 
E acho que não é apenas porque somos diferentes em tempos e essências. 
Sei que isso é bom e é rico, mas às vezes atrapalha. 
Como quando você quer me provocar e eu quero me concentrar. 
Quando você quer que eu te olhe e eu quero olhar pro lado. 
Quando você quer carinho e eu quero descansar. 
Quando você acorda tarde e eu acordo cedo.
Quando você acorda cedo e eu acordo tarde. 
É tanto quando que também sinto medo. 
E suas perguntas? Talvez eu saiba responder “o que há que tão pouco transamos?”. 
Preciso virar minha vida pro lado certo. Você podia me ajudar. 
E sim, transar com você é bom demais. Gostar tanto assim é o problema, não o contrário. 
Que grilo mais bobo. 
Mas não sei o que dizer para “porque você me afasta quando quero te tocar?”. 
Já ouvi isso antes. Tem remédio? 
As palavras são as tuas ondas, não as minhas... 


Escrito por Mauro Siqueira às 21h22
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                          ESCRITOS COM O CORPO

I

 

Ela tem tal composição

e bem extremada sintaxe,

que só se pode apreendê-la

em conjunto: nunca em detalhe.

 

Não se vê nenhum termo, nela,

em que a atenção mais se retarde,

e que, por mais insignificante,

possua, exclusivo, sua chave.

 

Nem é possível dividi-la,

como a uma sentença, em partes;

menos do que nela é sentido,

se conseguir uma paráfrase.

 

E assim como, apenas completa,

ela é capaz de revelar-se,

apenas um corpo completo

tem, de apreendê-la, faculdade.

 

Apenas um corpo completo

e sem dividir-se em análise

será capaz do corpo a corpo

necessário a quem, sem desfalque,

 

queira prender todos os temas

que pode haver no corpo frase:

que ela, ainda sem se decompor,

revela então, em intensidade



Escrito por Mauro Siqueira às 11h21
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II

 

De longe como Mondrians

em reproduções de revista

ela só mostra a indiferente

perfeição da geometria.

 

Porém de perto, o original

do que era antes correção fria,

sem que a câmara da distância

e suas lentes interfiram,

 

porém de perto, ao olho perto,

sem intermediárias retinas,

de perto, quando o olho é tato,

ao olho imediato de cima,

 

se descobre que existe nela

certa insuspeita energia

que aparece nos Mondrians

se vistos na pintura viva.

 

E que porém de um Mondrian,

num ponto se diferencia:

em que nela essa vibração,

que era de longe impercebida,

 

pode abrir mão da cor acesa

sem que um Mondrian não vibra,

e vibrar com a textura em branco

da pele, ou da tela, sadia.



Escrito por Mauro Siqueira às 11h20
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                           III

 

Quando vestida unicamente

com a macieza nua dela,

não apenas sente despido:

sim, de uma forma mais completa.

 

Então, de fato, está despido,

senão dessa roupa que é ela.

Mas essa roupa nunca veste:

despe de uma outra mais interna.

 

É que o corpo quando se veste

de ela roupa, da seda ela,

nunca sente mas definido

como com as roupas de regra.

 

Sente ainda mais que despido:

pois a pele dele, secreta,

logo se esgarça, e eis que ele assume

a pele dela, que ela empresta.

 

Mas também a pele emprestada

dura bem pouco enquanto véstia:

com pouco, ela toda, também,

já se esgarça, se desespessa,

 

até acabar por nada ter

nem de epiderme nem de seda:

e tudo acabe confundindo,

nudez comum, sem mais fronteira.



Escrito por Mauro Siqueira às 11h20
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                          IV

 

Está, hoje que não está,

numa memória mais de fora.

De fora: como se estivesse

num tipo externo de memória.

 

Numa memória para o corpo,

externa ao corpo, como bolsa:

que como bolsa, a certos gestos,

o corpo que a leva abalroa.

 

Memória exterior ao corpo

e não da que de dentro aflora;

e que, feita que é para o corpo,

carrega presenças corpóreas.

 

Pois nessa memória é que ela,

inesperada, se incorpora:

na presença, coisa, volume,

imediata ao corpo, sólida

 

e que ora é volume maciço,

entre os braços, neles envolta,

e que ora é volume vazio,

que envolve o corpo, ou o açoita:

 

como o de coisa maciça

que ao mesmo tempo fosse oca,

que o corpo teve, onde já esteve,

e onde o ter e o estar igual fora.

 

 

João Cabral de Melo Neto



Escrito por Mauro Siqueira às 11h19
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